
Chegar de véspera - pelas 23h30 de terça-feira - foi a fórmula encontrada por Emídio Gonçalves para ter a garantia de atendimento nos serviços da Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais (SRARN). No dia anterior, apesar de ter entrado na fila pelas 6h45, a irmã (que o acompanhou na vinda desde a Quinta Grande) já não foi a tempo de conseguir a ansiada senha com um número baixo para tratar do Sistema de Identificação Parcelar dos seus terrenos, procedimento indispensável para formalizar a candidatura aos subsídios para a agricultura.
Os dois irmãos são os primeiros da extensa fila que, madrugada dentro, foi tomando forma à entrada do Edifício Golden Gate, num cenário repetido há já algum tempo. E que tem vindo a aumentar à medida que se aproxima o termo do prazo para a entrega das candidaturas - precisamente amanhã, dia 15 de Maio.
"Trouxemos bolachas, pêros e café", explica o agricultor, sem conseguir disfarçar o cansaço resultante de uma noite em claro e ao relento. Emídio Gonçalves, que até veio para guardar lugar para uma outra irmã, lamenta "a pouca organização" em torno deste processo, que "obriga as pessoas a andar aqui dias seguidos".
O agricultor da Quinta Grande não entende porque "não se fazem marcações para o dia seguinte". É que deste modo, vinca, "até parece que querem chatear as pessoas para nem sequer virem aqui".
Sacrifício pelo subsídio
Dez minutos antes das oito, quando as portas do edifício abriram ao público, eram já aproximadamente quatro dezenas os agricultores que aguardavam pela vez de poderem resolver a situação. Alguns deles vão, de certeza, ter de voltar hoje ou amanhã, partindo do princípio que os serviços de atendimento não estão a conseguir responder às inúmeras solicitações.
Ascensão Conceição chegou com a esperança de ver o seu problema finalmente desbloqueado. À boleia do neto saiu do Seixal pela quatro da madrugada, para uma hora depois tomar lugar na fila. Enquanto descansava o corpo nas cadeiras do ainda encerrado Café Golden Gate, explicou-nos que já havia ali estado "umas poucas de vezes", embora esclarecendo que não é por falta de resposta dos serviços.
"Tenho sido bem atendida, só que tenho um problema nos terrenos que ainda não foi possível resolver", explica. De resto, considera que a culpa desta situação "é das próprias pessoas, que deixam tudo para resolver no fim".
Sentada a seu lado, a companheira de ocasião, Maria Augusta, tem uma opinião diferente. "Tem poucas pessoas no atendimento", aponta em tom crítico. E explica que já é a terceira vez que se desloca aos serviços de Agricultura para tratar do parcelar. "Desta vez cheguei pelas três da manhã, mas mesmo assim já estavam sete pessoas à minha frente", revela.
"Da primeira vez que cá vim cheguei às sete da manhã e só apanhei o número 24, por isso não fui atendida", relembra, aproveitando para lamentar os inconvenientes deste processo. "A quem não é atendido deviam entregar uma ficha para o dia seguinte", sugere a agricultora da Camacha. Que, acrescenta, era um procedimento mais adequado do que "dizerem para a gente vir mais cedo". Se o procedimento fosse esse "não era preciso este sacrifício de andar aqui de madrugada tantas vezes".
"Desta vez trouxe uma merenda, porque penso que não vou ser atendida antes das três da tarde", sublinha, acrescentando que o sacrifício de pernoitar na rua "acaba por valer a pena se nos derem o subsídio". Porque a vida do agricultor "está cada vez mais difícil".
Sem querer revelar o nome, um outro agricultor de Câmara de Lobos, repetente na espera, explica que na véspera "havia o dobro das pessoas na fila". Que, revela, ouviram da boca do secretário regional da tutela, Manuel António Correia, a garantia de que no próximo ano iriam ser tomadas medidas no sentido de agilizar os processos.
"Deviam fazer marcações de um dia para o outro ou então pôr estes funcionários a rodar pelos vários concelhos", opina. É que, acrescenta, "há gente que vem de muito longe e não tem transporte".
Fonte: Diário de Notícias