"Pouca gente" na Fajã da OvelhaApesar de procurada por turistas e locais, a Fajã de Ovelha é uma freguesia envelhecida, onde os jovens partem para fugir à agricultura.
"Aqui já não tem nada de bom, só velhos entrevados". José Gomes vive há mais de 40 anos na Fajã da Ovelha. A saída dos jovens da freguesia para outras paragens, por falta de trabalho ou para fugirem à agricultura, é a resposta que consegue encontrar para justificar a população envelhecida da qual faz parte. Contudo, de resto, nada tem a apontar. É um sítio calmo, sereno, seguro, mas que só ganha vida, durante a semana, com a visita de muitos turistas e, aos sábados e domingos, com os visitantes de fora que, por norma, vêm do Funchal para as casas que construíram para os dias de descanso.
A maior parte das casas que estão fechadas ou pertencem a emigrantes, ou a pessoas que adquiriram os terrenos e construíram habitações de raiz para os fins-de-semana. "Há muita gente emigrada, alguns estão lá, querem vir e não podem, outros têm o seu negócio, mas são pobres", refere, garantindo que, no Verão, a freguesia transforma-se com o regresso provisório dos filhos da terra.
"Aqui só falta gente que trabalhe, porque ninguém quer trabalhar", aponta, referindo-se à agricultura. "Isto vai rebentar para algum lado porque ninguém vive sem trabalho", alerta, recordando, por momentos, os tempos de juventude, altura em que passou por muito e aos quais apelida de "má vida".
À espera do autocarro que o leva com regularidade ao Centro de Saúde da freguesia, Aníbal Fernandes garante que a Fajã de Ovelha é "uma freguesia muito bonita", embora os jovens saiam rumo a Inglaterra, França, ou até mesmo à Venezuela e África do Sul. "Estamos a diminuir", graceja, alertando que "não há rapazes". Aníbal também garante que há já muita gente do Funchal a descobrir o que a Fajã da Ovelha tem de melhor. "É uma terra muito boa, há muita gente do Funchal a fazer já as suas casas aqui para passar os fins-de-semana", aponta.
Embora também tenha estado emigrado na Venezuela, levou pouco tempo a perceber que queria voltar para a terra natal e passar "o resto da vida" por lá, uma terra calma e que é constantemente alvo da curiosidade dos turistas. "Muitos perguntam-me onde vai ter a Levada Nova, mas eu não sei falar inglês, por isso digo 'arriba'", graceja Aníbal Fernandes, que nunca perdeu o sotaque venezuelano.
Bomba de gasolina faz falta
À porta do Centro de Saúde local, Alfredo Rijo aguarda que a esposa saia de uma consulta. Em relação ao funcionamento desta unidade, não tem razões de queixa, até porque estava para ser consultado, mas à tarde, e conseguiram atendê-lo logo de manhã. Dos serviços que lá opera não tem nada a apontar e apenas lamenta que não seja dado o justo valor às potencialidades da terra.
"A Fajã da Ovelha tem muita coisa boa, mas o que está
melhor não se aproveita", frisa, referindo-se às "terras perdidas" que ninguém quer cultivar. "Na agricultura não se ganha muito, é uma coisinha para comer, para remediar", continua, apontando que "só os velhotes é que trabalham". "Os mais novos querem emprego, mas com a fazenda não se importam", afirma. Apesar de tudo, Alfredo, como tantos outros, contenta-se com o que existe na fragmentada Fajã de Ovelha. "O que mais falta aqui é uma bomba de gasolina", sublinha. Para abastecer o carro é preciso ir até à Calheta.Insegurança também ainda não tem expressão significativa, para regozijo de todos. "Na parte de baixo, ainda vai a polícia, de vez em quando acontecem alguns assaltos, mas não muitos", reforça, sorrindo.
Sentada numa paragem de autocarro para passar mais uma tarde na Casa do Povo da Fajã da Ovelha, Maria Silva considera que novas infra-estruturas até poderiam ser bem acolhidas, mas que o problema reside na pouca população da freguesia. Por exemplo, um supermercado seria uma boa aposta. Porém, o investimento cai por terra por causa do número de habitantes. "Fazer falta, faz, mas, para dizer a verdade, não há população que possa sustentar um supermercado", sublinha.
Para Maria, que vive há quase 70 anos naquela freguesia, o que está em falta "é um centro de dia a sério". "Dizem que vão fazer um lá para cima, não sei se é verdade, mas gostava que fosse cá em baixo porque onde está é muito frio", desabafa.
Outras das questões apontadas pelos residentes da Fajã da Ovelha diz respeito à dispersão dos diferentes serviços na freguesia. De um lado fica a Casa do Povo, de outro o Centro de Saúde e a Junta de Freguesia. Só mais em baixo encontra-se a igreja que muitos consideram estar votada ao abandono.
Segurança tem diminuído
"Isto é um cantinho do céu". Maria Silva descreve desta forma a tranquilidade que se respira na Fajã da Ovelha. Contudo, embora ainda sem grandes exageros, para bem da população, confessa que lá se vão verificando algumas "brincadeirinhas" pela freguesia. "Há alguns a fazerem brincadeirinhas, a roubar umas galinhas", afirma, desejando que "o diabo seja surdo" para que situações piores não aconteçam.
Maria Moniz, de 71 anos, sempre viveu na Fajã da Ovelha. Frequentadora assídua das actividades da Casa do Povo local, "uma distracção", como descreve, garante que a freguesia já foi mais segura do que agora. "Para dizer a verdade, era segura, uma freguesia muito boa, mas agora sempre gostam de fazer alguma partida, de roubar alguma coisa", conta. O que ajuda a passar o tempo livre são as actividades da Casa do Povo. "Uma pessoa distrai-se", frisa, garantindo que se não fosse isso estavam "desprezados em casa".
4 comentários:
E depois eu é que não tenho razão quando digo que a Fajã da Ovelha está literalmente moribunda. Só não vê quem não quer!
A culpa é da Escola da Raposeira!
Garantiram nos que nos iam dar emprego, mas de pouco ou nada nos valeu... Tive que "fugir" para conseguir meter o pão na boca dos meus filhos.
A escola da raposeira nao ia resolver o problema da desertificaçao e do desemprego que atinge a freguesia,mas a verdade e em termos de oferta de emprego nao acrescentou nada de novo,afinal tanto quanto sei apenas uma pessoa da freguesia garantiu trabalho,ja as restantes vagas foram preenchidas por filho de y e afilhado x etc...
Que a faja esta morrendo aos poucos la isso esta,e enquanto se continuar nesta politica pobre em ideias e em investimento nao vamos longe nao senhor...os caminhos sao essencias nao se discute,os passeios seniores sao bons (para cativar votos para desenvolver a freguesia e que ja tenho as minhas duvidas...)
A escola pela gestão que leva não tarda muito fecha...
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